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March 13, 2019

5 coisas que todo escritor iniciante precisa saber

Texto: Bruno Crispim

Há três anos, coloquei o último ponto final no meu primeiro romance “O Segundo Caçador”. Esse foi um marco importante que permitiu me enxergar pela primeira vez como um escritor e que encerrou uma década de dúvidas sobre a minha capacidade de concluir um livro de ficção.

“Ascensão”, meu segundo romance, ainda que mais complexo, foi muito mais fácil de ser finalizado simplesmente porque eu não tive dúvidas de que conseguiria terminá-lo.

Mas, antes de conquistar confiança, rasguei e deletei muito do que escrevi. Passei anos estudando e escrevendo escondido. Foram mais de 10 anos me aperfeiçoando até que me senti pronto.

Hoje divido com vocês, a pedido do Sweek, 5 coisas que todo escritor iniciante precisa saber.

 

 

Na escrita, nenhum conselho é tão básico quanto leia muito, leia de tudo. Ler é tão importante para o processo da escrita que até autores renomados continuam usando grande parte do seu dia na companhia dos livros. Stephen King, por exemplo, dedica um terço do seu dia para a leitura.

Mas não se limite a ler livros do seu gênero preferido, procure ler todos os gêneros possíveis. Leia os clássicos. Leia não-ficção. Leia roteiros. Leia poesia. Leia contos. Leia histórias em quadrinho e animes. Leia livros de teoria literária. Releia e estude os livros que causaram um grande impacto em você.

Em um livro, cada palavra é uma decisão de seu autor. Uma decisão que repercutirá no enredo, nos personagens e no ritmo da narrativa. Ao ler centenas de livros, você será capaz de dialogar com o autor e enxergar suas intenções por trás de cada palavra.

 

 

Todo escritor já experimentou a acumulação vertiginosa de suas dúvidas, até que estas impactem seu ritmo de escrita. “Será que eu sou bom o bastante?” Necessariamente, a dúvida evolui para o desespero, que resulta em uma página em branco sendo encarada por olhos desesperados.

É como uma profecia autorrealizável. Sua insegurança impede a escrita, o que prova que suas incertezas tinham motivação; consequentemente, você pensa em nunca mais escrever uma só palavra. Todo escritor passou e vai passar por isso. Aconteceu com aquele seu autor favorito. Aconteceu comigo. E provavelmente acontecerá com você. Faz parte.

O bloqueio criativo acontece quando olhamos para o nosso texto e supomos que ele nunca será bom porque não está bom naquele momento. Para combater esse tipo de pensamento, nada melhor do que acreditar em Hemingway: “A primeira versão de qualquer coisa é uma bosta.”

Parece pouco, mas se você aceitar (de coração) que a primeira versão do seu livro nunca será boa, você para de esperar que ela seja ótima. Nosso trabalho de escritor se assemelha muito ao trabalho de um escultor. Vamos trabalhando o mármore aos poucos, acreditando que, algum dia, a pedra disforme se transformará em arte e que em alguma ocasião futura, você terá orgulho do que fez.

Antes da arte, vem a primeira versão.

 

 

Lembrem-se sempre de que o grande talento do escritor é a capacidade de não desistir.

Escrever bem leva tempo. Especialistas estimam que a excelência, em qualquer atividade complexa, exige por volta de dez mil horas para ser atingida. Cantar, dançar, escrever, ensinar, tanto faz.

Em uma pesquisa, músicos clássicos foram separados em três categorias: ótimos, bons e medíocres. Aos vinte anos, os que eram ótimos tinham praticado, em média, dez mil horas na vida. Os bons, por oito mil. E os medíocres apenas quatro mil horas.

É lógico que existem exceções e fatores (ambientais, inatos ou fortuitos) que impactam a velocidade de aprendizado de cada um. Mas nem mesmo Mozart escapou das suas dez mil horas. Seu pai era um ótimo músico e professor que treinou o seu filho intensamente desde muito cedo. Aos 18, Mozart já era um músico extraordinário – que tinha rompido a barreira das 10 mil horas de prática. E, ainda que ele tivesse destaque desde a infância, suas obras-primas foram compostas apenas na idade adulta.

Concluindo, o tempo que um escritor escreve tende a ser proporcional à qualidade da sua obra. Então, esqueça essa conversa fiada de que você não nasceu com talento para escrever e se esforce o máximo que conseguir. Escreva, leia, critique, analise e reescreva. Alcance logo as suas 10 mil horas.

 

 

 

Escrever um romance não é fácil. Nem rápido. Até a versão final, o processo pode levar vários meses, até anos. Nesse tempo, é muito fácil perder o foco. É possível que criemos personagens desnecessários, enveredemos por subtramas despropositadas, dissertemos sobre cenários sem importância, defendamos causas que nossos personagens não defenderíam. Sem o devido cuidado, chegamos ao ponto de abandonar nosso protagonista sem perceber.

Para diminuir este risco, o ideal é planejar a história.

Esboce a apresentação da trama (início), o desenvolvimento do conflito central (meio) e a resolução (fim). Defina pontos-chave onde a trama deve passar (plot points). Imagine as origens de seus principais personagens. Conheça a jornada do herói e como a sua história se encaixa nela. Saiba, com profundidade, quem é o seu protagonista e qual é o seu arco dramático.

Sobretudo, defina cedo o seu logline. Para isso, responda às três perguntas abaixo em um parágrafo sucinto:

Quem: O que faz o protagonista ser interessante?

Desejo: O que ele quer acima de tudo?

Obstáculo: O que o impede de conseguir o que deseja?

O logline é uma ferramenta que expõe a espinha dorsal da história. A partir do conflito (desejo x obstáculo) vivido pelo protagonista (quem), ações se desenrolam fazendo a história avançar, criando a tensão necessária para prender o leitor. Existem várias outras ferramentas para planejamento de enredo (storyline, escaleta, scene cards, método snowflake, save the cat, etc.) e a minha sugestão é que você estude o maior número delas.

Contudo, saliento o logline por ser uma forma rápida de relembrar o propósito do enredo. Releia-o sempre que recomeçar a escrever; será muito mais fácil manter o foco no que importa para a história.

OBS.1: Planejar a sua história não quer dizer que ela deva ser imutável. Pelo contrário. Mude o que achar necessário, desde que seja uma decisão consciente.

OBS 2: Se ainda não conhece a jornada do herói, aproveite o link da explicação feita pelo TEDx: https://www.youtube.com/watch?v=Hhk4N9A0oCA

 

 

Mostre, não conte. Nenhum dos conselhos de escrita é tão repetido e tão pouco compreendido. A intensão por trás desse mote (que parece simples) é não deixar a narrativa soar artificial e, consequentemente, favorecer a imersão do leitor.

Nas palavras de Robert McKee: “Nunca force palavras nas bocas das personagens para contar ao público sobre o mundo, a história ou as pessoas. Ao invés disso, mostre-nos cenas honestas e naturais nas quais os seres humanos conversam e se comportam de maneira honesta e natural (…). Em outras palavras: dramatize a exposição.”

Dramatizar a exposição é dar todas as informações necessárias indiretamente, através de ações ou diálogos. Isso deixa a cena mais suave e elimina “barreiras” à imersão. Sutileza é a palavra-chave.

E como estamos tratando de mostrar, e não dizer, vamos à demonstração:

Cena “dita”:

Augusto e Cristina não se viam há muito tempo. Desde que terminaram o seu namoro, quase um ano atrás. Ele fica confuso e envergonhado ao ver que ela continua mexendo com seu coração.

Cena “mostrada”:

Augusto passa o olhar pelas pessoas que andam pela rua. Encara por alguns segundos um careca de terno impecável. Muda para uma velha corcunda e depois para uma loira de vestido colado.

– Augusto? – ela diz.

Ele encara a loira. Boca aberta. A voz não vem.

Ela se aproxima e beija as bochechas dele.

– Sou eu, Cristina. Vai falar que não se lembra de mim?! – coloca as mãos na cintura. – Não faz nem um ano que a gente… você sabe…

Ele sorri.

– Lógico que lembro de você lind… quer dizer… eu lembro de você, Cristina.

Ela sorri. Ele enrubesce.

 

 

Contar é muito mais rápido – neste caso, três vezes mais – e fácil. É exposição pura e simples. Mas a dramatização é mais envolvente e traz o leitor para perto, fazendo com que ele imagine o que acontece.

Existe ainda uma consequência secundária da dramatização. Conforme você vai criando detalhes para preencher as lacunas necessárias, você conhece melhor os seus personagens. Trejeitos, escolhas de palavras e tiques nervosos são criados a partir de detalhes mínimos.

 

 

Como tudo na vida, existe uma contraindicação. Nem sempre é ideal dramatizar partes com pouca importância para a história. Se uma informação é necessária e mostrá-la desacelera a cena a ponto de prejudicá-la, pense em inserir essa informação em outra parte da história ou até mesmo em exclui-la.

Como última opção, e só como última, pense em contá-la. Às vezes é a melhor opção, mas nunca conte por preguiça.

Bruno Crispim

Bruno Crispim nasceu em Niterói-RJ. Apaixonado por ficção, comportamento humano e finanças, transitou, por muito tempo, nessas áreas. Morou no Canadá por um ano e aproveitou o inverno congelante para escrever “O Segundo Caçador”, um esforço que rendeu frutos. O romance foi vencedor do III Prêmio UFES de Literatura e publicado em 2016.

De volta ao Brasil, foi convidado para participar da oficina de escrita criativa do premiado autor Marcelino Freire. Recentemente, finalizou seu segundo romance, “Ascensão” e participou da coletânea de contos da revista Superinteressante “Realidades Alternativas” (Ed. Abril). No Sweek, escreveu GUIA do Escritor Iniciantee “Contos Difusos e Alguns Poemas Soltos”.